Uma coisa que sempre me deixou muito curiosa acerca das histórias de namoro de muitas amigas lésbicas é que algo que me parecia não bater: a idade que tinham e o número de anos de relacionamento amoroso que haviam se dedicado. Estou falando daquilo que usualmente se considera namoro "de verdade", ou seja, aqueles que acontecem na adolescência ou na vida adulta, geralmente com vida sexual incluída no pacote.
Colocando na ponta do lápis isso tudo, diria que elas começaram a namorar com pessoas do mesmo sexo lá pelos seis ou sete anos de idade. Considerando que boa parte delas antes de começar a estabelecer relações homossexuais já haviam tido relações (e muitas vezes longos relacionamentos) heterossexuais, pelo que essas meninas contam acho que deveríamos empreender algumas pesquisas acerca da vida amorosa dos bebês. Poderíamos até começar pelo estudo daqueles que vão a berçários porque seria mais fácil encontra-los...
Brincadeiras à parte, tais narrativas acerca da duração dos relacionamentos são importantes para a manutenção de uma espécie de identidade de grupo. Mulheres homossexuais são geralmente associadas a longos relacionamentos, a uma certa preferência por estabelecer relacionamentos "sérios" ao invés de apenas "ficar" e a uma certa aversão a trocar freqüentemente de par. Diria, inclusive, que mulheres homossexuais compram e assumem com certa tranqüilidade este modelo. Além disso, ter namorada a bastante tempo é um bem simbólico importante ao grupo de que falo. É bom para a composição de uma boa imagem no grupo ter relacionamentos longos e estáveis. De modo geral, as meninas que fogem a esse padrão são inclusive consideradas "perigosas" ou pouco "sérias".
De fato, pouco importa a veracidade do que dizem em relação ao que fazem. Afinal, essas histórias não nos falam apenas sobre os relacionamentos que são estabelecidos. Elas falam sobre como esse grupo vai se produzindo e reproduzindo com o passar do tempo. As idéias que são perpetuadas por essas narrativas são um ótimo gancho para pensar sobre mulheres gays. Estereotipadas ou não, mantenedoras de pré-conceitos ou não, essas idéias nos dizem muito sobre essas mulheres e a visão de mundo desse segmento específico da sociedade a que pertencem. Falam inclusive sobre noções do que é ou deve ser o comportamento social de uma mulher. Trazem noções de honra feminina, entre outras coisas. O que elas contam nessas narrativas merece e precisar ser ouvido... e pensado.