
Eram tantas vozes, tantos corpos bailando diante de meus olhos. Nada se fixava, o baile tomava conta de todo o salão, os delicados movimentos brotavam daqueles corpos, risos, vozes e música, muita música. Tudo era suave, desde os cabelos até os gestos, tudo era ao mesmo tempo coerente e estranho, aquilo me atordoava e me deslumbrava. Era como um jogo de pétalas, de diferentes flores e botões que se encontravam e se tocavam. É difícil explicar, foram instantes de brilho e de sonho. Todas eram lindas, juntas se combinavam e se enfeitavam. Todas as mulheres se derramavam em focos de felicidade e encanto, todas, todas elas me fascinavam. Meus olhos percorriam tudo rapidamente, procuravam um ponto de equilíbrio que logo se desfazia em enxurradas de desejo. Estava de fora, mas desejava estar na festa, na comemoração. Ninguém se opunha a ninguém, ninguém era sugado ou sugava, tudo era pleno de trocas e toques. Observava tudo aquilo como quem nada conhece, parecia novo, e não era, parecia sonho, mas não era. Alguém me tocou nos ombros e o pensamento com o olhar se voltaram a origem desse leve toque. Suas mãos eram macias e meu ombro nu as recebeu com delicadeza e aceitação. Seus olhos falavam, diziam tantas palavras que nem um dialogo seria capaz de traduzir, seus olhos me queriam e com um só passo me deixei ir, nos enlaçamos em nossos braços e entramos na bailação. Nossos corpos pareciam um só, éramos uma só. Gestos que só nós sabemos fazer, leveza de quem se ama, olhar de quem se conhece, curiosos e investigadores. A cada toque, a cada volta que acompanhava a música, mais forte ficávamos e mais firmes eram as vontades. De repente e não sei como, nossos lábios se tocaram e de dentro saiu um suspiro sussurrante, aquilo era tão bom, tão inocente. Os lábios se procuravam e se pesquisavam. As mãos tentavam adentrar-se umas nas outras, era o sensorial das meninas que tinham vontade de se transformar. Tudo em volta continuava brilhando, tudo ainda era luz e todas ainda eram lindas. Não se escutava nada do mundo lá fora, era só aquilo que estava importando naquele momento. Parecia que era loucura ou mentira, nunca tinha sentido nada daquilo, não era exatamente novidade, mas dentro do já conhecido aquilo tudo era novo, ao menos diferente. Não se tinha crença, preocupações, paranóias com o depois. Acontecia e era bom, todas continuavam sorrindo e se amando, todas sabiam da importância daquele momento e lugar. Era um oásis de sensações, um oásis de relacionamentos que sabíamos que seria difícil de se achar novamente. Era aquilo e pronto. Continuava a girar com minha nostalgia rebelde, continuava a desejar aquela pessoa tão desejante. Desejávamos tudo, o corpo, os lábios, o interior, o colo. Cada abraço, cada catada da alma, cada pensamento fugia e se espalhava, todas compartilhavam os sentimentos das outras. Sabíamos que aquilo não era para sempre, algo parecia começar a mudar. O dia começou a raiar bem longe e como quando te acordam de um sonho que podia ser eterno, as cortinas daquele salão foram abertas, o ar gélido entrava e corroía tudo o que antes era perfeição. As faces belas e sensíveis se congelaram, tudo parou ao mesmo tempo, tudo foi paralisado por aquela poeira da noite que tinha se passado. As lindas mulheres e cenas que constituíam aquele conto desabaram no chão que as engoliu de uma só vez. Não poderiam mais se amar ou ao menos se olhar. Todas estavam cegas, surdas e mudas. Mascaras foram colocadas, cada uma se recolheu em seu eu protozoário e se refugiou de tudo aquilo que entrava pela janela do salão. As mascaras eram como armaduras, petrificavam os corações e as expressões. Aquela noite não poderia ser a última, mas havia sido tão boa que até parecia um castigo dado por aqueles que não sabiam, não queriam ou simplesmente não aceitavam toda aquela felicidade. Pessoas que podem ser comparadas a corvos, mas não corvos que querem o já morto, corvos que não suportam a vida, corvos atrofiados em seus tabus pessoais e que perseguem os ainda livres. As mascaras eram proteções contra as pedras arremessadas, proteções para que tudo aquilo de limpo e bonito que tinham não se esvaísse pelos olhares e gestos reprovadores. Formou-se uma grande roda em torno de todas nós e começou o julgamento, a tentativa de cobrar um preço por tudo aquilo. Uma tentativa de estabelecer uma pena comum a todas. Ninguém esperava o que aconteceu, mas foi tão lindo, era tão colorido. Todos ficaram pálidos e engasgados com a beleza do que havia acontecido. Todas aquelas mulheres viraram borboletas, coloridas e encantadas. Todas juntas foram, foram embora e se recolheram para voltarem ainda mais cheias de vida, sem vontade de se vingar, sem ódio, com todo aquele amor e respeito. Elas estão por ai, estão por toda parte. Muitos ainda se recusam a vê-las e realmente não as vêem, alguns gostam, outros não sabem de sua existência. Mas elas estão vivas e voam por todos os cantos daquele salão e do mundo, voam e enfeitam umas as outras e enfeitam ao mundo. Vivem de noite, de dia; no sol e na chuva. Elas dormem, comem e trabalham, mas são lindas borboletas
coloridas. Estão por aqui, por ali, por ai...







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